quinta-feira, 8 de maio de 2008

Cantos das cidades 3 - Teorias e conspirações (BA)



Gilberto Gil canta que a Bahia já lhe deu régua e compasso. Eu poderia dizer que ela me deu subsídios para escrever o segundo conto de Cantos das cidades. E nem precisou de muito. Bastou uma única frase: "Eu não preciso ler jornais. Mentir sozinho, sou capaz." do baiano Raul Seixas. A partir dela, nasceu o conto "Teorias e conspirações" que contou com a co-autoria da advogada Rafaela Lopes. Abaixo, postei um trecho:


"Murilo não acreditava em teorias da conspiração. Para ele, as teorias da conspiração não passavam de conspirações para se fazer acreditar nas teorias. Era uma posição sensata para um jornalista competente formado pela UFBA. Para ele John Kennedy foi mesmo morto por Lee Harvey Oswald; Juscelino foi vítima de um acidente de carro; Jango, uma fatalidade; Jimmy Hendrix, Janis Joplin, Jim Morisson e Elvis? Tudo overdose; PC Farias, crime passional; ET de Varginha e Chupa Cabras? Por favor não me façam rir; Caso Roswell, CASO O QUE?!"


O protagonista do conto é uma homenagem a um grande amigo soteropolitano, Murilo Souza e a história brinca com as lendas urbanas nossas de cada dia.


terça-feira, 6 de maio de 2008

Entrevista



Ontem concedi uma entrevista para o jornalista Alex de Souza na TV Assembléia. Muito boa devido à pertinência das perguntas feitas pelo jornalista. Alex conversou sobre os novos projetos do selo Jovens Escribas, os lançamentos de "O Dia das Moscas" e "Os Poetas Elétricos", Lei do Livro, mercado editorial potiguar e, o melhor, não recorreu a óbvia e enfadonha pergunta: "Como foi que surgiu os Jovens Escribas?" que eu já não tenho saco de responder.


E para embelezar esse post, ilustrei uma foto do grande Alex de Souza.


Admirável Cidade Nova

Publicado na Diginet
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“Pensar enlouquece!” é o que devem pensar alguns (na verdade, muitos) conterrâneos. Por isso, é bom se adaptar e seguir o fluxo, fazendo sempre o que determina o sistema, a sociedade, a moda, os outros. É essa gente bronzeada e lobotomizada sem mostrar nenhum valor, ingereindo o Soma da mesmice, dia após dia. Por que experimentar o novo? Por que procurar saber? Favor, dirija-se ao outro guichê!
Essa premissa torna a cidade estranhamente assemelhada a certos clássicos literários que retratam um futuro sombrio e ameaçador, dando ares de terra arrasada, de completa devastação e revelando frouxos princípios morais.
O lugar agora se divide em diversas zonas: a Zona Norte, onde se concentra grande parte das castas inferiores; a Zona Sul, onde residem as castas superiores, favorecidas pelo sistema; os subúrbios emergentes como Nova Parnamirim e Cidade Verde; e as curiosas Zonas Aristocráticas com indesejáveis bolsões de pobreza incrustrados, como Areia Preta e Mãe Luíza.
A população de 800 mil seres humanos é formada por castas de características diferentes, manipuladas pela lógica do Capitalismo Tropical. Nos gabinetes e altos escritórios empresariais são definidos os pouco dotados de recursos, destinados aos rigores do trabalho braçal, ao sub-emprego, à pobreza. A eles não é dado acesso à boa educação, assistência social, saúde. Geralmente são pardos, alguns negros, quase sempre fora dos padrões de beleza estabelecidos. A aparência é importante, imprescindível, determinante até. Forma é conteúdo.
Os gabinetes e altos escritórios empresariais também decidem os que crescem para comandar. Ricos, bonitos, de pele clara, bem apessoados e asseados, exibindo sorrisos brancos e brilhantes. As castas inferiores não têm qualquer poder de decisão, mas são levadas a acreditar que escolhem os comandantes. Não passam de massa de manobra.
Não há espaço para a surpresa, para o imprevisto. O diferente não é tolerado. Fugir dos padrões, quebrar paradigmas, romper com o pré-estabelecido constitui crime gravíssimo, inafiançável, passível de punições severas, olhares reprovadores, isolamento forçado.
Estamos no ano 60 depois de Bel. O pensamento é proibido e a mediocridade amplamente estimulada e praticada. O intelecto, a erudição, a alta cultura são sufocados com refrões barulhentos e repetitivos com extrema virulência e incrível eficiência. Aprender coisas novas, acostumar-se com letras desconhecidas, melodias estranhas, livros, filmes minimamente inteligentes, palavras polissilábicas demais podem causar estafa, exigindo tamanho empenho das sinapses neuronais que acabam por provocar aneurisma devido ao pouco uso. Que fiquemos com as músicas cheias de vogais e as familiares canções oitentistas que já conhecemos há quase 30 anos.
A lei do menor esforço mental impera na cidade. A disciplina e a perfeita ordem com que os cidadãos cumprem seus desígnios tornam sua realidade admirável. Somos todos treinados para viver assim, condicionados à satisfação, à felicidade, conduzidos a amar o que somos obrigados a fazer. A cidade agora se chama Nova Utopia e o futuro sombrio, tão temido no passado, encontrou lugar no presente.
“O segredo da felicidade e da virtude é amarmos aquilo que somos obrigados a fazer.”Aldous Huxley – Admirável Mundo Novo

segunda-feira, 5 de maio de 2008

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Cantos das Cidades 2 – Pelejas (RS)




O primeiro conto de “Cantos das Cidades” a ficar pronto se passa em Porto Alegre (RS) e se baseia na seguinte frase: “Fidel e Pinochet tiram sarro de você que não faz nada.” Como vocês devem ter notado, trata-se de um trecho da canção “Toda forma de poder” dos Engenheiros do Havaí. O co-autor do conto foi o gaúcho Glauco Gobbato, torcedor do Internacional, produtor de bandas, gerente de bar e agora escritor.
Abaixo segue um pouco do conto, batizado de “Pelejas” para degustação.

- Do meu lado? Essa é boa! Daqui a pouco tu vais dizer que a culpa é minha pelas barbaridades que ele está aprontando!
- A culpa é tua sim! Tua e de todos os que apóiam uma postura retrógrada, voltada contra os interesses da coletividade. São essas coisas que atrasam esse país.
- Quer dizer que tu achas mesmo que governante pra ser bom, tem que ser de esquerda?
- Claro. A esquerda, meu caro primo, é que é capaz de promover um governo voltado para o povo. A direita só produz tiranos e elitistas. Nós temos Fidel, vocês Pinochet!
- Fidel mantém seu governo à base de torturas e assassinatos políticos, seu mongolão!

Que papelão, hein, Sr. Fenômeno?



O cara é rico, famoso, bem sucedido. Enfim, pode ter a mulher que quiser, na hora em que quiser e cai numa arapuca dessas. Levou 3 travecos pro motel e virou piada nacional.

Pelo menos rendeu esse anúncio aí do Lenílson Lima da Art&C.



A decadência é azul

Publicado na Diginet
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A vida se esvaindo entre os dedos, o tempo passando lentamente, os goles ávidos e vigorosos, pretensos catalisadores do tempo, supostos aceleradores do relógio, inúteis analgésicos da alma. Paliativos insignificantes para sintomas odiosos.

Todo dia é dia, quanto mais cedo, melhor. Antes das 9 da manhã, o uísque já desce macio, goela abaixo, corpo adentro. Empreendem uma fuga alucinada em direção a lugar nenhum. Os olhos vagueiam e já não enxergam horizontes, de expressão vazia, contemplam o nada que toma conta de seus dias.

A existência embebida em álcool recebe um componente extra de melancolia, corrosivo e explosivo ao mesmo tempo, que comprime as mentes ociosas, começando por eliminar qualquer indício de projetos futuros e terminando por fulminar os derradeiros resquícios de perspectivas. Os homens criam uma película isoladora cada vez mais espessa e se afastam de tudo aquilo que os define, que determina o que e quem eles são: família, amigos, hábitos e costumes. Tornam-se arremedos de si mesmos, atormentados por fantasmas de um futuro que nunca vem, jamais chega e, se vier, não traz nada de animador.

Passando pelas calçadas do bar, vejo aqueles distintos senhores mergulharem voluntariamente num poço sem fundo, vitimando a dignidade, desistindo de viver. Suicídio em conta-gotas e em goles sem conta, alegoria do fim que se aproxima, implacável, avassalador.

As paredes azuis são da cor da tristeza, dando o tom dos sentimentos liquefeitos, adornando o ambiente, esta mórbida sala de espera. E os senhores, consumidos pelos dias, desgastados, acabados, aguardam. Esperam a morte chegar, sem perceber que ela já os alcançou. Azul é a cor da vida que não é vida. Azul é a cor dos espectros de homens que já não são. Azul é a cor daqueles que já não existem mais.